
O presidente sabia de tudo Na sua primeira entrevista
exclusiva sobre o grampo, Mendonça de Barros diz que informou FHC de todas
as suas ações na privatização da Telebrás
Foto: MAX PINTO
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MANGAS DE CAMISA Ministro em casa: "Estou
satisfeito" |
HÉLIO CAMPOS MELLO, LUCIANO SUASSUNA E MINO PEDROSA
O ministro das
Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, deveria ter passado a noite
de sexta-feira 20 na sua cidade natal, Pouso Alegre, no sul de Minas. Em
companhia do irmão, José Roberto, iria receber um título e uma homenagem
da Câmara Municipal. Luiz Carlos não foi porque estava tenso. E talvez
estivesse tenso porque um dia lhe disseram, quando era presidente do
BNDES, que iriam fazer uma grande reforma na sua sala. Ela ganhou uma mesa
maior e mais bonita e alguns painéis novos na parede. Há 15 dias falaram
para o substituto de Mendonça de Barros, André Lara Resende, que alguns
dos painéis estavam com defeito e os trocaram. Entre as duas reformas, o
BNDES tocou o maior leilão de privatização do Brasil, que vendeu 12
empresas estatais de telefonia. E, nesse meio tempo, gravaram conversas do
presidente do BNDES com o presidente da República, o ministro das
Comunicações e representantes de consórcios interessados no leilão da
Telebrás. "Essas reformas foram muito estranhas", especula agora o
ministro das Comunicações. Na noite de sexta-feira, quando recebeu ISTOÉ
para sua primeira entrevista exclusiva desde a divulgação das fitas que
ameaçam sua permanência no cargo, Mendonça de Barros havia dispensado o
terno de ministro e se preparava para receber uma massagem, com a qual
esperava relaxar das tensões dos últimos dias.
ISTOÉ – O sr. pretende renunciar? Luiz Carlos
Mendonça de Barros – A minha ida ao Senado era para
esclarecer os fatos relativos à privatização da Telebrás. É evidente que
tinha consciência de que a fita era uma edição das gravações e que faltava
uma série de diálogos que aconteceram naquele dia. Em um comentário
inicial, fiz questão de dizer que tudo aquilo foi obtido
ilegalmente.
ISTOÉ – Mas os fatos são verdadeiros. Mendonça de
Barros – Aquele foi um dia longo em que o André (Lara
Resende, presidente do BNDES) e o Pio (José Pio Borges,
vice-presidente do BNDES) começaram a trabalhar cedo. Ficamos até
quase meia-noite. Nesse período, falamos com um bom número de consórcios.
Com a MCI e a Sprint, que iriam concorrer pela Embratel, discutimos, por
exemplo, questões legais com os advogados. A MCI me comunicou que iria
participar do leilão só às 10 horas da noite. Nada disso apareceu na fita.
Mas, de repente, em função dos diálogos começou um questionamento de um
pedaço do programa de privatização. Por isso, era fundamental dar uma
explicação. A única ressalva que eu fiz era de que aquilo que foi
publicado era uma edição de uma edição. Esqueçamos o crime do grampo, mas
vamos esclarecer o crime de informar mal a opinião pública.
ISTOÉ – Qual é o crime? Mendonça de Barros
– Agora, está todo mundo centrado na questão do ministro, nos
palavrões, na eventual tentativa de influenciar as coisas, mas isso vai
passar. Os trechos da fita representam apenas um pedaço do diálogo,
claramente editado, para me comprometer.
ISTOÉ – E a questão ética do fato de o BNDES formar os
consórcios? Mendonça de Barros – Há uma declaração
corajosa do Gustavo Franco dizendo que faz a mesma coisa no Banco Central.
Estávamos vendendo uma empresa grande. São coisas diferentes do que ocorre
numa licitação para construir uma estrada ou vender um automóvel. É como
vem sendo feita a privatização desde o começo. E não vejo outra forma. Se
nós fôssemos ter uma postura de juízes, a MCI e a Sprint não teriam
entrado.
ISTOÉ – O sr. acredita que o poder público deve entrar como
agente ativo na privatização? Mendonça de Barros –
Estão querendo proibir a eficiência. Querem um maior valor para o Tesouro,
mas não deixam o governo ter um mínimo de ação.
ISTOÉ – O sr. acha que caiu numa armadilha ao ir até o
Senado? Mendonça de Barros – Depende do que você
queria obter com o depoimento. O que nós queríamos era um fórum para falar
o que falamos. Estou satisfeito.
ISTOÉ – E por que aconteceu tudo isso? Mendonça de
Barros – Porque houve interesses privados atingidos na
privatização da Tele Norte-Leste. E não é por outra razão que a edição da
fita se concentra nessa empresa e em apenas um dos lados – o que deixa
muito fácil para saber a quem interessa esse problema. Nós achamos naquele
momento, para defender a competição, que era certo evitar a fusão dos
consórcios, e deixar um dos leilões com apenas um consórcio e sem
competição.
ISTOÉ – O que deu errado? Mendonça de Barros
– Os espanhóis juravam para todo mundo que eles iriam comprar a
Tele Centro-Sul porque já tinham a CRT. Ninguém duvidava disso. O que
aconteceu é que os italianos e o Opportunity tinham um documento de
confidencialidade e exclusividade dizendo que iriam participar do leilão.
Por isso, considerávamos um consórcio já organizado. E aí fomos estimular
o outro lado para aparecer um outro concorrente. Isso foi feito com o
Ricardo (Sérgio de Oliveira, diretor do Banco do Brasil) e o outro
grupo. Nas vésperas do leilão, fomos informados de que a Previ estava
colocando dificuldades. Aí, o consórcio estava tendo problemas. Mas a
Previ não tinha assinado um segundo documento que era fundamental para o
leilão, que era para ser usado na constituição do consórcio. Para dar o
lance, precisava disso. Além do mais, o Citibank só ia dar a carta fiança
se o consórcio estivesse organizado. Como não estava formalmente
organizado, pedimos para o Banco do Brasil dar a carta fiança. O BB disse
que ele já havia dado ao outro consórcio. Dissemos que não havia problema.
Quando dois consórcios disputam a mesma empresa, a fiança real só irá para
um, porque o outro perde o leilão. Isso está na fita, mas só divulgaram
"no limite da nossa irresponsabilidade".
ISTOÉ – Depois de três meses do leilão, por que só agora a fita
foi divulgada? Mendonça de Barros – Na sexta-feira
depois do leilão, vários bancos ligaram dizendo que o consórcio Telemar
estava ofertando participações com ágio em Nova York. Depois, outros
bancos ligaram dizendo que eles estavam procurando empréstimos para quitar
a compra. Achamos isso um absurdo. Começamos a perguntar à Telemar: "De
onde vem o dinheiro com que vocês vão pagar isso aí?" E não tinham.
Falaram que o Banco do Brasil iria emprestar. O BNDES tinha o programa de
financiamento para grupos nacionais, mas só que nós avisamos que não
iríamos financiar a seguradora do Banco do Brasil. Alguns deles tinham
problemas até para pagar os 50% da parte do leilão. O mercado comenta que
o BB fez aumento de capital na La Fonte e na Inepar para dar a estas
empresas dinheiro para pagar a primeira metade do lance do leilão. Imagine
começar uma empresa com esta dificuldade.
ISTOÉ – Não seria o caso de esperar não pagar para anular o
leilão da Tele Norte-Leste? Mendonça de Barros – O
problema é que eles iriam arrumar dinheiro de curto prazo para pagar. E aí
a empresa ficaria dependente do dinheiro de curto prazo. O mais seguro era
o BNDES entrar com 25% e fazer um acordo de acionista no qual as decisões
mais estratégicas precisariam do acordo dele.
ISTOÉ – Por que eles aceitaram sem brigar? Mendonça de
Barros – Na hora não tinham outra alternativa. A informação que
tenho é de que estavam com dificuldades para conseguir o dinheiro de curto
prazo. O ponto seguinte foi quando eles foram escolher a diretoria. O
Carlos Jereissati me ligou: "A diretoria vai ter um financista de sucesso
no Rio e dois meninos do Garantia." Era o sentido de que qualquer dois
espertos do Garantia poderiam ser diretores. Eu falei: "Só por cima do meu
cadáver. Esta é uma empresa complicada, com 16 teles que vão ter que ser
fundidas. Quando o governo tirou a exigência de operadores do consórcio,
foi no pressuposto de que os controladores se utilizassem de mão-de-obra
qualificada disponível nas teles. Então você escolha três técnicos da
Telebrás."
ISTOÉ – Por que não acabou aí? Mendonça de Barros
– Nós avisamos a ele que o BNDESpar iria fazer o leilão da sua
parte o mais rápido possível. Eu fui procurado pelos italianos que
disseram: "Nós perdemos a Telemar, mas continuamos tendo interesse.
Gostaríamos de comprar esta parte e já conversamos com alguns sócios." Os
italianos mandaram uma carta, com oferta firme, com ágio de 20% sobre a
parcela do BNDESpar. Achamos que tudo estava perfeito.
ISTOÉ – Por que a briga seguiu? Mendonça de Barros
– Começou uma certa briga pelos jornais, sempre centrada no Carlos
Jereissati. Uma vez ele tinha me ligado, dizendo: "Olha, este acordo de
acionistas está atrapalhando a gestão por causa do BNDES." Eu respondi:
"Carlos, você sabe que a hora que tiver alguém que vocês tenham interesse,
nós vendemos." Mas começou um bombardeio nos jornais e foi aí que começou
a história das fitas.
ISTOÉ – Uma semana antes da divulgação da história das fitas, o
Carlos Jereissati foi recebido pelo presidente. Mendonça de
Barros – A causalidade que me parece clara é a seguinte: as
fitas e o grampo não têm nada a ver com o processo de privatização. Tem a
ver com esta questão da Telemar. Quando você vê onde está a mira, você
sabe quem está atrás do gatilho.
ISTOÉ – Qual benefício a Telemar teria ao enfraquecê-lo com a
edição das fitas, uma vez que o BNDES continuará detendo
25%? Mendonça de Barros – É por isso que o André Lara
Resende também está na edição. Ele é o presidente do banco e eu sou, de
certa forma, co-patrocinador da intervenção na Telemar. Se estes sujeitos
são obrigados a ir embora, eventualmente os próximos devem ter uma postura
flexível em relação ao problema. Porque nós realmente ficamos inflexíveis.
Mais do que isso, o Carlos Jereissati declara na nota oficial que divulgou
na quinta-feira, uma coisa que identifica muito claramente o objetivo dele
em tudo isso. Quer ver, vamos fazer uma conta: R$ 3,3 bilhões era o preço
mínimo da Tele Norte-Leste. O BNDES pagou R$ 825 milhões pelos 25%. Os
italianos queriam pagar um ágio de 20% sobre isso, ou seja, R$ 165
milhões. O Carlos Jereissati diz que, eticamente, este dinheiro deveria ir
para os sócios e não para o BNDES. É uma declaração completamente
descabida do ponto de vista legal. Como o BNDES pode pegar um lucro que
ele realizou e passar para quatro sócios privados? Esta é uma resposta boa
para este problema todo.
ISTOÉ – Uma briga de R$ 165 milhões? Mendonça de
Barros – Pelo menos. Porque este é o ágio proposto pelos
italianos, mas o BNDESpar só pode vender sua parte por leilão, o que pode
aumentar o ágio.
ISTOÉ – O sr. não acha que deixou de ser uma questão
técnica? Mendonça de Barros – Eu e o André viemos ao
governo porque acreditamos no projeto do presidente Fernando Henrique
Cardoso, que tem uma agenda extraordinária para o País. Não viemos ao
governo por indicação de partido nem barganha política. Mas para ajudar o
presidente. Se ficar ajuda, ficamos. Se sair ajuda, saímos. A única
questão nova é que isso criou um problema pessoal, um desgaste muito
grande. Foi uma acusação leviana e vamos ver se nós temos fígado para
aguentar esse tipo de coisa.
ISTOÉ – O sr. está dizendo que, se o presidente pedir, o sr.
sai? Mendonça de Barros – Se o presidente achar que
estou atrapalhando, eu vou embora.
ISTOÉ – Mas o sr. não pretende pedir demissão enquanto não
esclarecer tudo? Mendonça de Barros – Evidente que há
neste processo todo uma mágoa pessoal muito grande, minha e do André. Eu e
o André percebemos uma manobra ilícita, cujo grande prejudicado seria o
Tesouro. Resolvemos fazer disso uma batalha pessoal, traduzida no vigor
das palavras usadas – "inimigo", "vamos arrebentar" – e, de repente, esse
sujeito (Carlos Jereissati) é considerado idôneo e nós somos os
ladrões e as pessoas acusadas.
ISTOÉ – Qual sua participação na ONG Brasil
2000? Mendonça de Barros – Dentro do processo de
privatização existe um esforço muito grande de convencer a opinião
pública. Foi um processo que veio da experiência da Vale do Rio Doce
porque toda pesquisa de opinião, depois do leilão, mostrava que a maioria
era contra. Quando Sérgio Motta começou o programa de privatização, um dos
itens era a propaganda oficial. Aí veio aquela briga do Brizola dizendo
que o preço era vil e alguns empresários vieram para nós e perguntaram no
que podiam ajudar. Eu disse: "Como existem ONGs contra a privatização,
porque vocês não criam uma a favor da privatização?" Fizeram isso e a ONG
fez um programa de mídia. Perguntaram se podiam usar a mesma empresa da
campanha oficial, a DM9DDB, porque simplificaria o problema da criação.
Isso porque quando uma empresa de publicidade faz uma campanha, prepara
dez idéias das quais pega uma ou duas e as outras ficam lá sem valor. E
fizeram isso.
ISTOÉ – E as doações para a ONG não eram de empresas do setor,
como Motorola e a própria Telemar? Mendonça de Barros
– Mas quem tem interesse nisso? Não são essas empresas? O que me
assusta é considerar como intervenção do governo o uso de mecanismos
legais e legítimos que uma parcela da opinião pública faz para expressar
um determinado desejo. Obvio que a Motorola entrou. Certamente quem tem
interesse em que haja privatização para poder vender equipamento e ter
expansão é quem participa. Aí dizem que o problema é porque usou a mesma
empresa de publicidade. Mas ora, é um negócio privado e eles sabem qual a
maneira mais barata de se fazer as coisas.
ISTOÉ – A outra acusação que consta é de que o dinheiro desta
ONG teria sido usado para zerar as contas da campanha do
presidente. Mendonça de Barros – Isto é mentira e
calúnia. Não houve nenhuma vinculação de uma coisa com a outra. Isso eu
posso afirmar claramente porque conheço as pessoas que fizeram. É muito
fácil provar porque uma ONG tem a contabilidade clara.
ISTOÉ – Quando o presidente recebeu as fitas ele chamou o sr. lá
para cobrar explicações? Mendonça de Barros – Nós
tivemos certeza de que havia a fita quando o Mercadante (o deputado do
PT, Aloisio Mercadante) procurou o André Lara Resende. Aí fomos ao
presidente e ele falou: "Nós também já estamos investigando isso porque o
pessoal de informação tá lá." Foi aí que começou a coisa oficialmente. Nós
nunca vimos fita nenhuma.
ISTOÉ – Em nenhum momento ele chamou o sr. para pedir
explicações? Mendonça de Barros – O que ele disse foi
o seguinte: "Olha, o que eu ouvi – ou vi, não me lembro bem – não tem
absolutamente nada." Porque tudo isso que está envolvido aí, o presidente
foi mantido a par. Foi mantido a par que nos estávamos tendo problemas em
dois consórcios, da Embratel de uma natureza, e o outro (Telemar)
de outra natureza. Evidentemente que nós não fizemos essa intervenção num
consórcio sem avisá-lo. Foi uma decisão minha e do André, mas ele foi
avisado, porque era um negócio não normal. Além do que o presidente sabe
como a coisa vai. O único benefício pessoal que queríamos era o
sucesso.
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